[continuação da parte anterior]

Mas, por aquilo que estás a dizer parece quase que aquilo que faz com que haja 'maus' é a falta de comunicação. É quase o bloqueio de qualquer coisa, o que não queremos sentir. Mas nem sempre é assim, não é? Eu estava a pensar no Senhor dos Aneis [do Tolkien], aquele filme, porque é perfeitamente possível imaginares que alguém queira tirar a tua liberdade, que alguém queira usar-se de ti para os seus próprios fins, para se servir da tua energia, para absorver a tua energia, para montes de coisas...

Exactamente, exacto.

E nesse caso, há os bons e os maus, não é? Ou seja, os bons são aqueles que não se deixam submeter...

Vamos lá a ver, não, não acho isso. Eu diria mais assim, ninguém é bom, ninguém é mau cem por cento; numa situação tem que se ver o que é que é bom e o que é que é mau. O que é bom é quem tem uma visão mais abrangente, o que é mau é uma visão mais limitada. Essas pessoas que querem tirar a liberdade aos outros para seu proveito são ignorantes porque não vêm que há outras maneiras que são verdadeiramente boas [eficazes] porque se eles vissem eles conseguiam [escolher a maneira mais eficaz para atingir o seu objectivo, o seu proveito].

Eu não sei, sabes, eu tenho algumas dúvidas sobre isso, eu acho que isso existe e é o mais vulgar, de longe, é o mais comum, e acho que existe uma coisa que é mesmo tu saberes que existe uma maneira melhor e que isso te daria mais prazer, mais consciência, mais essas coisas todas, só que mesmo assim tu simplesmente desististe de viver, não queres... tomaste a opção...

Ah, mas é claro! Mas é que isto não é só uma questão de saber, é um saber existencial, é um saber que transborda. É assim, tu podes saber...

Mas tu não achas que é possível optar por não querer?

Por não querer?

Sim, por não querer essas coisas todas boas que nós...

Não. Não é possível, não. [Como se a vontade fosse ela própria um aspecto a trabalhar e a acordar, e não a própria essência do ser.]

(rio-me)

Não é possível. Mas eu entendo o que estás a dizer, porque é assim, há pessoas que topam e não vão, mas há pessoas que topam e vão, só que é assim: esse topar é um topar ainda... porque é assim, nós já experimentámos que isto [roubar, por exemplo] faz mal e continuamos a fazer, a gente sabe que faz mal, mas continuamos a fazer. Mas enquanto não tem a experiência íntima, de dentro, de que faz mal, a gente não larga aquilo. É isso que acontece com essas pessoas. Elas sabem que está mal, mas não fazem. E depois normalmente quando pedes para dizerem qualquer coisa, elas justificam-se: "porque roubaram-me a mim também roubo, tenho que roubar." Estás a ver?...

Isso são as pessoas que estão 'no caminho' não é?

Hã?

Bem, isto se calhar não é assim uma coisa muito importante, mas isso são as pessoas que estão no caminho...

Toda a gente está no caminho!

Mas eu acho que existe outra situação bastante diferente, que é diferente do que tu estás a dizer, em que a pessoa sabe, a pessoa tem tudo, todos os meios, e pode ir. Não se trata de estar agarrada a uma situação e não sei quê, trata-se de a pessoa decidir: não quero aquilo: o êxtase, etc. Quer morrer por exemplo. Só que, em vez de querer morrer pode querer fazer outras coisas, pode querer levar outras pessoas com ela, etc...

Sem dúvida, mas para já há uma coisa, há pessoas que têm uma dificuldade muito grande, têm deficiências no hardware, mas aí isso é óbvio, não é? Níveis de química no corpo e no cérebro e quando há mesmo dificuldades, aí é como uma máquina avariada e tu não vais dizer que é máquina é má; está avariada. Pronto. Agora, as outras que tu disseste, que estão mais conscientes, isto agora é - não te vou dizer que é verdade, é uma questão de constatação - é assim: elas se puderem, elas estavam de outra maneira. Elas podem dizer, "ai eu não quero saber do êxtase". Não quero saber do êxtase uma treta, elas não conseguem é ter êxtase. E desistem.

Ou então o êxtase passa por outro sítio. O caminho para o êxtase passa por voltar atrás. Há tanta coisa... agora é assim, porque é que eu digo isto? É a minha experiência, estás a ver, porque é assim, nunca vi ninguém que não fosse sensível ao próximo degrau. Estás a ver? Tu pões na altura certa, a pessoa está perdida, o degrau certo para elas evoluírem, elas vão. Agora o problema é que por muitas razões há pessoas que o próximo degrau é muito alto, e estão ali à rasca. Ou porque se atrasaram, acharam que era só subir, ou porque isto, ou porque aquilo. Mas há uma coisa, se tu conseguires pôr um degrauzinho, essas pessoas vão logo, isso é que faz-me tirar a certeza existencial que toda a gente quer isso. Agora [para saber] como é que elas reagem a isso, não vale a pena ouvir tudo o que é que elas dizem, é mais a tua observação. Porque as pessoas são muito orgulhosas: "ah não!, estou-me borrifando para isto"...

[interrompendo] Tu não te consegues imaginar a ti próprio a dizer que não queres subir o próximo degrau, e podendo subir?

Imagino, imagino sim. Numa daquelas reacções que as pessoas têm normalmente. Isso sim.

Em consciência não.

É em consciência, sim.

Não, mas eu estou a dizer, tendo consciência das coisas, portanto 'em consciência', não dizes, não te consegues imaginar a dizer, que não queres...

Não quero subir aquele degrau ou um degrau de evolução.

Qualquer degrau! Tipo um degrau que possas subir, uma coisa...

Por exemplo, o degrau que significa a evolução...

Sim...

Podes ter a certeza que não digo.

Não és capaz de imaginar isso?

Não, não existe. Isso não existe.

(rio-me)

Isso não existe. Andar para trás não existe. Depois do Big Bang nunca mais nada voltou para trás. E mesmo quando voltar para trás é um voltar para ir para a frente. Isto tudo tem um sentido e é isso que é importante. A não ser que a gente não queira dar sentido.

Pois [i.e. é precisamente isso que está em causa, podemos não querer dar sentido].

Sim, mas aí é a liberdade que nós temos, de escolher...

Exacto, é isso...

Ah, sim, sim...

Era disso que eu estava a falar.

Ah, mas isso é... pronto. Existe a liberdade de escolher e de nós darmos significado às coisas. Mas eu também te digo uma coisa elas têm um significado muito forte, muito oculto, muito forte, muito apelativo. Que é aquilo a que as pessoas chamam Deus e de Conforto e de Luz.

Mas tens a liberdade de negar isso?...

Tens, tens a liberdade de negar isso. Tens a liberdade de negar isso. Mas, ao negar isso... pronto, isso acontece muito com aquele pessoal que nega a civilização, nega o conforto, nega tudo. Porquê? Porque não tem energia, deu-se mal com o sistema, punks que andam por aí a viajar pelo mundo. Mas quando se chega a uma certa idade, ele ama tudo, e lá chegaremos todos.

Não, mas é que eu acho que essa liberdade existe realmente, tu podes tomar essa decisão qualquer que seja o teu grau de consciência...

Ah, mas isso podes...

e qualquer que seja a razão, até pode não haver razão nenhuma. A simples... por exemplo, pode ser uma vontade de mais liberdade, porque nós quando vemos mais sentido nas coisas, há certas coisas que... como é que hei de explicar, há uma certa individualidade que se perde. Isto talvez não seja muito claro, mas tipo, há medida que vais vendo que toda a gente é igual a ti e que todas as coisas têm um sentido e já tinham um sentido desde há não sei quanto tempo, etc, etc, e tudo começa a 'encaixar-se' digamos assim, numa certa forma de ser, de existir, tu podes começar a ver: 'bolas, mas eu preferia que não houvesse nada disto, porque assim era mais livre.' Se fosse tudo a zeros, eu podia fazer o que quisesse. Tudo era igual, estás a ver. E então tu podes rejeitar essa ordem, essa estrutura, que não é uma estrutura física, não é uma estrutura rígida, mas podes rejeitar isso, porque preferes o nada...

Sim, isso acontece muito, acontece muito. Alias, é a única maneira de... mas isso faz parte, é importante. Isso é porque há gente que se obcecou muito por uma ilusão e por uma perfeição, aí sim.

Uma forma específica de perfeição.

Sim. Por isso depois também é normal largar isso, mas depois, no fundo, no fundo, como eu te estava a dizer, um 'não' é, no sentido mais amplo, um bocado 'sim'. Porque as pessoas fazem isso mesmo em função da evolução. Ao rejeitar a evolução, é como se fosse uma evolução. Agora isso é constatações existenciais, porque no fundo, uma coisa é o estar, o exterior, outra coisa é lá no fundo. Quando a gente medita no nosso fundo, no fundo dos outros, vemos esse aspecto muito dentro de todos nós. Tu vês que é assim: ele está a dizer isto, por causa disto, mas... muda-lhe aquilo, ele diria logo outra coisa. Agora, tu não vês que, quando se é inconsciente, quando se está ainda num processo inconsciente, tu mudas os cenários, mudas o ambiente à volta e tu estás a ver, aquela pessoa está a dizer aquilo, aquela pessoa está assim por causa deste ambiente. Muda-lhe este ambiente, começas a ver logo: ela a mudar tudo, tudo, tudo. Tudo, quer dizer, o mais inconsciente... e depois, o que é que fica nestas mudanças todas? E é isso.