[Continuação de "A Génese do Kung Fu na China"]

Então era assim que estava a situação até à criação do Kung Fu To’a que foi no final dos anos 60. Agora é assim, aquilo que eu te vou dizer acerca do Kung Fu To’a, é uma síntese de tudo o que eu ouvi, de tudo o que eu li, baseado em muitas fontes, desde as fontes do próprio Kung Fu To’a. Ou seja pessoas, desde o braço direito do Mirzaii, praticantes do nosso Kung Fu que treinaram na Suíça e no Canadá. Também por pessoas que não eram do Kung Fu To’a, como um empregado da embaixada iraniana em Portugal, por um jornalista iraniano de artes marciais, que andava por todo o mundo e que também me deu indicações sobre o Kung Fu To'a.

De maneira que tudo o que eu te vou falar é de muitas fontes e é a síntese dessas fontes todas que depois é fácil apurar o que é a visão pessoal e o que é mais factual, e o que é a minha síntese disso tudo. (revistas – karate francesa, inside Kung Fu, internet, alguém falou que ouvi falar). E vou dizer a título pessoal, baseado nessas informações todas, não vou inventar mas também não vou fazer uma soma disso tudo. Então é assim:

O Kung Fu To’a foi criado pelo Ibrahim Mirzaii que, segundo parece, era uma pessoa extraordinária, em termos de capacidades, e um grande visionário. Tão visionário que conta-se que o Kung Fu To’a foi criado, não por aprender estas técnicas e aquelas técnicas algures e ele fazer uma síntese disso, mas sim ele apreender a essência do Kung Fu algures e criar. Ou seja, não é uma evolução contínua como costuma haver nos Kung Fus mas foi um salto descontínuo. É nesse sentido que eu acho que ele é um visionário. E que salto? O salto foi basicamente a síntese do prenúncio da era de Aquário, da união do Oriente com o Ocidente, da razão com a emoção, porque basicamente são duas mentes, (uma mente mais emotiva, de relacionar com a sensibilidade e com os sentidos e outra mente mais distanciada...) No fundo o conhecimento exotérico e esotérico, o conhecimento que tem a ver com o exterior das coisas e o conhecimento que tem a ver com o interior das coisas, a tua relação com as coisas. Foi uma síntese que se fez algures a meio caminho entre o Oriente e o Ocidente, que era o Irão, que na altura era um país muito ocidentalizado, mas ao mesmo tempo também muito tradicional. E foi aí que se fez esse Kung Fu que era uma síntese.

E então o que acontece é que o Mirzaii fez um Kung Fu que era baseado numa coisa que era muito importante, que não era completamente nova mas que estava descurada, que era: o centro ser o homem. Porque todos os Kung Fus eram em função da pessoa, mas só na teoria, na prática não era assim.

É a questão da evolução, não é? Da evolução para outra coisa qualquer.

Como?

A evolução para outra coisa qualquer, no fundo estavam centrados naquilo que se queria ser, e não naquilo que se era...

Exactamente. Então o que acontecia é que os Kung Fus estavam muito fundados na observação da natureza, para ir ao fundo da nossa própria natureza. Acontece que as pessoas deixaram de seguir a sua natureza e em vez de se inspirarem começavam a imitar. Que é o perigo sempre do ser humano é imitar, não inovar. Então na maior parte dos Kung Fus o homem quase deixava de ser homem para quase ser animal. Era quase caricato, muitas vezes as situações não tinham a ver com a realidade, era quase uma coisa exótica...

Isso era um bocado a crítica que o Bruce Lee fazia às artes marciais...

Exactamente. Então o Mirzaii, como ele era muito inteligente, uma pessoa muito inteligente, criou um Kung Fu que punha em primeiro plano o ser humano e vamos estudar o ser humano, respeitando o ser humano, com conhecimentos esotéricos e exotéricos. Os exotéricos, do exterior, tinham muito a ver com anatomia, fisiologia, a mecânica, a matemática, a maneira como a energia se despendia dentro do corpo, a maneira como desenvolver os vários tipos de energia em termos mecânicos, ou seja, a parte física e como tirar o maior partido da parte física. E por outro lado também os conhecimento esotéricos, que tinham a ver com a chamada energia interna (chi) que eram conhecimentos que iam da parte puramente energética à psíquica. Temos sete corpos, de modo que o primeiro é visível, mas depois há uma data deles. Então incluíam muitas disciplinas, tal como hipnose, hipnoterapia...(Fotos de Mirzaii e dos seus alunos no Irão.)

 

Esses estudos todos levaram mais ou menos quantos anos, quantos anos é que ele esteve a estudar...

Nunca se sabe bem, o que é típico dos mestres, especialmente se forem pessoas que inovam. Porque parece que toda a gente, para lhes dar valor, tem de dizer, foi mestre de não sei quem, etc. Então muitas das pessoas que inovam preferem mostrar o seu valor por aquilo que fazem do que propriamente estar a dizer isso, porque em vez de creditar está a descreditar. Para mim, uma pessoa que aparece com uma coisa nova que criou, significa que essa pessoa, cuidado!, é um visionário, dá saltos, não precisa de andar a pisar pegadas. Agora para muita gente, só se se estiver enterrado na tradição é que se tem valor. Agora o Mirzaii, segundo consta, esteve a aprender na China e a parte espiritual no Industão, a Índia. Agora quanto tempo ele levou não se sabe, é secundário.

Segundo consta ele foi mandado pelo Xá para aprender Kung Fu para depois treinar as tropas, e acontece que depois, quando ele aprendeu Kung Fu deixou de querer ensinar Kung Fu às tropas. (o período sobre o Irão tem de ser reformulado.) Nessa altura começou a careira dele e a carreira dele tem muitos aspectos.

Eu só vou falar o que interessa mesmo, aquilo que é criativo, aquilo que é mais para a frente. Porque é assim, toda a gente tem a sua personalidade mas a personalidade não interessa, o que interessa é a individualidade. E ninguém é perfeito e eu não vou estar aqui a falar sobre o que aconteceu, e as desilusões de muita gente com ele, acerca do percurso dele, de ele ter sido candidato, meter-se na vida política do Irão e várias outras coisas, a relação dele com os alunos etc. Isso não interessa, isso tem a ver com a personalidade. O que interessa mais é a individualidade dele, aquilo que ele era e aquilo que ele fez de criativo e de inovação, isso é que é o mais importante, e é isso em que eu me vou centrar. Porque de resto, isso não interessa!

Não há ninguém que não se exponha. Ele expôs-se imenso, e não há ninguém que, ao se expor, não venham montes de coisas acima que não agradem a gregos e troianos. E isso é o menos interessante. Também tem de se enquadrar com a época e com as situações. Agora, sei é que ele tinha um poder muito grande magnético perante as pessoas. E ele captava as pessoas com uma força danada e graças a isso fez milhares e milhares, centenas de milhares, de praticantes no Irão. Aquilo foi uma coisa... todos os iranianos conhecem o Mirzaii, é uma pessoa extraordinária.

Ele era muito bom fisicamente. Fazia coisas que só algumas pessoas com certas capacidades físicas conseguem fazer. Porque é mesmo assim, já nem é uma questão de treinar. Há corpos que dá para fazer umas coisas mas que possivelmente não dá para fazer outras. E em termos de flexibilidade e pontapés e coisas assim ele era extraordinário.

O Mirzaii teve muito sucesso e criou uma universidade que preconizava o desenvolvimento integral do ser humano: a Universidade do Kung Fu Insha To’a, porque ele sempre disse que o Kung Fu era «o caminho da inteligência», era o que o Sharam sempre dizia. E, tipicamente, o que acontecia nessa universidade era: acordar de manhã, fazer condição física, treinar técnicas básicas e depois eram estudos o dia inteiro. Com disciplinas esotéricas e exotéricas. Tal como numerologia, fisiologia, anatomia, hipnose, acupunctura, uma data de disciplinas. E depois ao final do dia é que se ia treinar outra vez o Kung Fu, agora mais técnico. O Kung Fu To'a sempre foi muito técnico, com muita perfeição técnica, muita... até demais. E isso é uma coisa boa e é uma coisa má, como tudo. Porque se uma pessoa vai demasiado ao perfeccionismo... e depois de treinar a técnica, ao princípio da noite ainda havia as leituras do Mirzaii...

Tipo ensinamentos ou assim?

Exacto. Tipo leituras de sutras, comentários, etc. De maneira que era muito intenso... Era mesmo muito intenso, essa é a imagem típica do To'a

E isso durou mais ou menos quanto tempo?

Segundo consta isso foi durante os anos 70, mas não foi durante muito tempo, porque a partir de 79 começou uma confusão no Irão com ele. E,  principalmente com o choque com os islâmicos, quando houve uma espécie de legalização, de enquadramento, do que era o Kung Fu, eles diziam (o Governo) que o Kung Fu era um desporto, e ele dizia que não, que o Kung Fu era o caminho da inteligência. E num sítio onde o Corão é que é a palavra, ia criar e criou montes de confusão. E a partir de 79-80 começou toda a gente a sair do Irão, inclusivamente ele também. Portanto, se foi criado no final dos anos 60, entrou em força nos anos 70, não durou mais de 10 anos. Menos até. Mas isso aí não tenho a certeza.

Era muito exigente. Para ter o shawl (faixa) de Sabs, que era a última fase, o teste era muito exigente. A última coisa era ficar 24 horas em zenai e ao fim das 24 horas fazer as sete fases seguidas, com apenas um intervalozinho entre cada uma. Bem como responder a questões daquelas disciplinas. Mas era muito engraçado porque no final havia a tese, cada pessoa escrevia a sua tese, era muito giro.

E essas teses não estão disponíveis?

Eu não sei, não sei porque...

Era interessante tentar reconstruir um bocado aquilo que sobrou, os frutos que sobraram dessa escola...

Mas é isso que nós fazemos aqui. Também vai haver a tese, e às vezes quando falo disso (ainda não há ninguém com a sétima fase no nosso Kung Fu) pergunto...

Tu tens a sétima fase?

Eu sou um caso à parte, porque eu não estou ligado com os outros To'a. Mas depois já vamos falar sobre o nosso. Mas na nossa concepção, há gente que já tem quase a sexta fase completa e eu, de vez em quando, quando falo sobre o Irão falo na tese, que na nossa escola é importantíssima, porque é a síntese da pessoa, é a explanação do olhar para trás, ver o caminho que percorreu e ajudar outros no seu caminho. No fundo a tese é para isso. E a tese pode ser aquilo a que se deu mais importância, como por exemplo a parte técnica, a parte existencial, a parte energética, a parte física, a parte relacional com os outros, a parte... pode ser a conjugação disso tudo e pode ser mais uma coisa ou mais outra. E os avançados já estão a pensar há bastante tempo sobre a sua tese. Isso não são coisas que se chega ao final e depois é que se vai pensar na tese, são coisas que já convém ter um certo olhar desde sempre e ter consciência desse olhar... A tese é o culminar do percurso das sete fases.

Havia muita força naquela altura, os treinos eram excelentes. Também tinha a ver com a época. Os anos 70 foram o boom das artes marciais, como a arte do Bruce Lee, foi a moda das artes marciais. As pessoas davam tudo para treinar. Mesmo cá em Portugal era assim. Lembro-me, estava cá, era miúdinho mas lembro-me. Era uma moda em todo o lado, toda a gente treinava. E era como no Irão também. Gente a treinar e com energia muito dedicada para isso. E depois, com o passar do tempo as modas passam e só ficam aqueles para quem aquilo é mesmo o seu caminho.

Há muito mais coisas, pequenas coisinhas que se pode juntar, acerca das fases, e do Kung Fu porque o To'a tem muito que se lhe diga. Porque o To’a tem muito que se lhe diga. Mas basicamente é esse aspecto de usar os conhecimentos físicos e... mas depois podemos explanar aos pedacinhos. Mas isso depois vou guardar para a explanação da nossa e faço referência ao que é original e ao que é novo.

Depois, quando se entrou no período do komeni, da revolução islâmica, muita gente saiu de lá. E quem também saiu de lá foi o Sharam, que foi aluno de um aluno do Mirzaii. E para tirar a sétima fase não era qualquer um, havia pouquinhos no Irão com a sétima fase. Além de demorar muito tempo, também havia um teste muito forte, onde quase ninguém passava.

[...]

E tu chegaste a conhecer o fundador (o Ibrahim Mirzaii)?

Não, não cheguei a conhecer o fundador.

[...]

O Kung Fu To’a, tal como foi desenvolvido no Irão, esse Kung Fu parece ser uma cena completamente de transformação, não é?

É, é... [irónico...]

Não parece criar um padrão novo para substituir o antigo.

Era, era. Aquelas repetições que eles faziam, de quinhentos movimentos, quinhentos pontapés daqui, quinhentos pontapés dali, matôs até mais não, repetir as falas até mais não, o que é que é isso?

Estás a falar do Irão?

Sim, é padrões...

Isso toca na pergunta que eu tinha para fazer desde o início: o Kung Fu To’a, tal como apareceu, não consideras que fosse um Kung Fu taoista?

É que é assim, o taoismo temos de ser nós. Do exterior não vem taoismo nenhum. Agora é assim. A gente está no escuro, de repente vê uma luzinha «é o sol». Mas depois aquela luzinha é pouco vem mais uma luzinha «agora é que é o sol», ... «agora é que é o sol» ...,  «agora é que é o sol» ... não se pode dizer que não há transformação, não se pode dizer que não era verdadeiro Kung Fu, não se pode dizer nada disso... agora para mim era pouco. Principalmente porque não havia possibilidade de criação. E a verdadeira espiritualidade é criação. É a coisa que está mais próxima da espiritualidade é a criação.

Deixa-me ver se eu percebo só uma coisa: mesmo que uma pessoa aprende-se agora este Kung Fu To’a Flor de Lótus, e mesmo que percebesse montes de coisas, se depois fosse ensinar, digamos assim como uma técnica, acabava por se perder também isso, não é? Porque a verdadeira transformação só pode existir com criatividade em cada momento.

Exactamente!

Não pode ser uma cena repetida, ir buscar, com precisão, por mais preciso e perfeito que seja...

Pisar pegadas não transforma ninguém...

Tem que ser sempre novo...

Há que inovar, não há que imitar. E é isso que eu preconizo. E as escolas de Kung Fu To’a que saíram da nossa escola têm essa liberdade completamente, é óbvio...