Sobre a competição...

Pronto, é assim, para já uma coisa, Kung Fus há muitos, não é? Há pessoas para quem o Kung Fu está embrenhado com uma cultura taoista, budista; principalmente aquela parte budista de não comparar, não faz sentido nenhum comparar pessoas. Tal como se vais comparar uma abóbora com um bambu. Não tem nada a ver, não é?

Mas, apesar de o Kung Fu estar embrenhado com essas filosofias, que dissolvem completamente esse conceito - ou seja, não é que sejam contra, simplesmente não faz sentido - na prática não quer dizer que seja assim. Na prática, há competições de Kung Fu por todo o lado, os Kung Fu têm hierarquias muito fortes, as técnicas parecem muito bonitas, mas quando vão lutar, há uma tentativa de [forçar]... isso faz parte do ser humano, há uma coisa que é normal que haja um bocadinho e que a gente vai dissolvendo, mas há outra coisa que é completamente assumida. E isso é completamente abominável.

Ora, o nosso Kung Fu é diferente, o que se vê, por exemplo, pelos nossos símbolos, que são completamente transcendentais. A maior parte dos Kung Fus tem um bocado de influência de códigos de moralidade confuncionistas, que vêm o Kung Fu para a luta, para inculcar a obediência aos mais velhos e à tradição e coisas assim, tipo mandamentos. E nesses Kung Fus os símbolos são animais, garras, espadas, tudo cenas guerreiras e onde é preciso ter, como na tropa, um código...

Tipo vencer ou morrer...

Vencer ou morrer, obedecer... é como se pegassem numa arma... Em que treinar Kung Fu é como pegar numa arma.

Ou seja, pegar numa arma para dominar alguém.

Sim, é como se fosse um poder. Simplesmente um poder em função do exterior. No nosso Kung Fu, cujos símbolos são símbolos da transcendência: o fénix, o homem-pássaro, da união do material com o espiritual, etc, não faz mesmo nenhum sentido a comparação; nenhum sentido. Mesmo as nossas próprias graduações dizem respeito a cada pessoa, dizem respeito à pessoa em si. Não dizem respeito a um grupo, ou seja, não há exames, nunca se pode dizer que uma pessoa que tem um shawl é igual [a outra que tem] ou diferente [de outra que não tem]. Isso não tem nada a ver, nadinha. Diz respeito ao trabalho que ele fez. Há uma quantidade de trabalho que aquela pessoa fez e é isso que significa o shawl. E tudo acontece ao natural, a gente sabe muito bem que, quando está a treinar luta, é tudo muito relativo; estamos ali pelo sítio, nós andamos na mó de cima e na mó de baixo. Às vezes andamos na mó de cima e levamos tudo à frente. Outras vezes estamos na mó de baixo e somos um bocadinho vulneráveis. Sabemos que por exemplo se formos para uma situação mesmo real, que nos toca mesmo, um ou outro, que é muito valente, pode ficar acobardado e nós podemos ver uma energia não se sabe de aonde, são tudo coisas que... que fazem com que não faça sentido nenhum a comparação.

Podia estar a dizer-te aqui montes de coisas [que mostrassem] porque é que não faz sentido nenhum a comparação, principalmente quando a pessoa tenta... uma coisa é haver estes pedacinhos em que as pessoas competem um bocadinho, que são naturais e que a gente vai dissolvendo. Outra coisa é assumir - e nisso está a grande crítica que o Kung Fu To'a faz - é assumir, como certos Kung Fus fazem, como certas artes fazem [a competição como forma de determinar quem é melhor]. Porque isso é perigoso. Que é a subtil origem de toda a desarmonia do mundo. Que no fundo é um produto do medo. E o medo no fundo é o produto da falta de amor. Por isso, falta de amor, medo, comparação, divisão, inconsciência.

Pronto, e no nosso Kung Fu não faz sentido nenhum... porque uma coisa é a gente, às vezes, picar-se um bocadinho, mais rápido, ou querer ganhar, ou assim, porque é normal, é só um bocadinho; e dói, e são medos, e a gente diz que perde e não sei quê... outra coisa é assumir isso. Isso é uma coisa que se faz muito e que é muito perigosa. Assumir isso é muito perigoso. É isto que faz com que este mundo seja assim, é as pessoas terem medo de ficar para trás, terem medo de serem seguidas, é bate ou és batido, essas coisas todas...

Desculpa interromper-te, mas daí que a imagem deste Kung Fu não seja tanto vais fazer Kung Fu para seres melhor que os outros ou para seres mais forte que os outros, ou para conseguires 'impor-te', não é por isso. No fundo é uma questão de comunicação, vais para conseguires compreender melhor...

Para já vamos falar sobre o sentido destes símbolos todos de que nós falámos, que são símbolos transcendentais, sobre a expansão da consciência, uma coisa que se nota logo e que é assim: tu para expandires a consciência e para expandires o teu ser tens que cooperar. Tens que cooperar nesta coisa, cooperar contigo e cooperar com o exterior.

Cooperar é o quê, comunicar?

É. Cooperar é 'serve e serás servido', 'ajuda e serás ajudado', 'dá e receberás'...

Ou seja, estar em harmonia com o exterior...

Sim, e nunca querer apenas receber ou apenas dar, que são esses os dois extremos, os altruístas e os egoístas. Nem um nem o outro. E muito menos o dar para receber, que é os mentais. Dar simplesmente...

Mas é assim, se tu já conheces a 'lei da harmonia' já sabes que se deres vais receber!!!

Sim, mas para isso então esqueces esta conversa, vais esquecer esta conversa. Isto tudo é só para cozinhares um textozinho (risos).

Porque é que nós não achamos nada interessante a competição? Podemos até achar a competição saudável, mas muito pouca gente acha a competição saudável [quando a experimenta]. São muito poucas as pessoas em que não causa frustração a competição. Porque viver em função de quem é que ganha não interessa. O que interessa é o momento em si. Ou seja, o momento em que a gente, aconteça o que acontecer, aquele momento é que conta.

E isso é que é o sucesso das coisas, mesmo numa luta, e em tudo o resto, é o 'a pessoa dar-se bem', percebes? Não é a história do ganhar, é 'dar-se bem'. E chegamos a uma altura que dar-se bem, para mim é, dar-me bem eu [comigo próprio e em relação aos outros], e ajudar o outro a dar-se bem. Em suma esse dar bem é a tal coisa de que tu falavas [ter consciência de mim, do outro (exterior) e uma atitude de 'amor' - ver primeira parte ?? - link], pronto [numa situação de luta] é mais problema dele. Mas eu englobo a mim e ao outro, para nos darmos bem, e isso é importante. E quando uma pessoa engloba, em vez de pensar em derrubar o outro ou ganhar, ou não sei quê, pensar em dar-se bem, e dar-se bem com o outro, e ajudar o outro a dar-se bem, é esse o objectivo do Kung Fu, a mensagem do Kung Fu.

E isso a gente pode pensar que é uma cenazinha tipo religiosa / kitsch [de se negar para se dar bem], mas não tem nada a ver com isso, é muito colorido, é muito 'psicadélico' [porque caminha para uma aceitação/exploração plena]. Não é assim uma ???? para todos se darem bem [faz um sorriso amarelo]: 'agora não compitam... vá lá!!' Não. É muito rico, é muito vasto, é em busca disso que as pessoas fazem competição, a competição dá-lhes cor, dá-lhes emoção. Se não tiverem isso não há emoção. [Daí o] futebol e essas coisas todas. Agora, é possível ter muito mais emoção na cooperação. Mas muito mais emoção, mas muito, mesmo muito mais emoção.

Agora tem que ser uma cooperação 'transcendental'. Que aprofunda e engloba muita coisa, engloba viajar à escuridão do nosso ser. Porque é isso é que dá cor. Que é viajar ao escuro [aos nossos medos; levando a inconsciência à consciência], estás a ver? As pessoas normalmente fogem de si e tentam ter esse contraste [abordar os seus medos, medo de perder, ser abandonado, etc] no exterior, e esse contraste no exterior é um bocado perigoso. No interior é que tem que estar esse contraste. Ou seja, quando uma pessoa está a falar com o exterior, está a ver o exterior, e está a ver aquele confronto com o interior, e está a ver uma medida de compreensão consigo próprio, mas algo de contrastante, algo de confronto (pode ser até confronto), isso dá muita cor, muita cor. E é por isso que nós na nossa aula falamos em cooperação. Nunca dizemos 'luta de um contra o outro', mas de 'luta de um com o outro'. É diferente.

E esse aspecto é mesmo muito importante. Agora, é uma ciência, não é fácil, mas é gratificante em muitos aspectos. Em termos de harmonia e principalmente em termos de emoção e de 'cor', de psicadélico, no sentido de expansão e de... A outra competição é... é os bons, e os maus, hoje ganha um, amanhã ganha outro [ou, hoje ganho a um, amanhã ganho a outro, mas os problemas mantêm-se, a dificuldade, o medo de perder, permanece]. Umas vezes o Benfica outras vezes o Porto... Agora esta não, esta é muito psicadélica, é transcendental; que é o Fénix que morre para renascer, está sempre a morrer e sempre a renascer, sempre a morrer e sempre a renascer, é uma coisa... muito, muito forte.

E isto é uma coisa muito radical. A maior parte [das pessoas] vivem de maneira real e evolutiva, mas desarmoniosa; depois aparecem uns quantos a dizer uns mandamentos, mas esses mandamentos muitas vezes não têm cor nenhuma, porque é o tipo crianças: 'olha, tu vais para ali, e tu vais para ali, e dêem-se bem, etc, etc, dá-lhe um beijinho, etc.' E as pessoas dão um beijinho mas muita frustradas, percebes? Porque há manifestações pacifistas e não sei que mais [que são coisas úteis], mas no fundo, ninguém toca lá naquele sítio. Porque este sítio não se toca em grupo. (risos) Este sítio toca-se individualmente.

Depois, por acaso, uma pessoa quando toca neste sítio individualmente começa a encontrar à sua volta muita gente como ele. Não é em grupo que se vai, é individualmente. O grupo pode ajudar o individual, que é do exterior para o interior. Mas depois a verdadeira coisa é do interior para o exterior. E esta mensagem é muito importante, da não competição. Também não ser contra a competição e, se calhar pior que tudo, é preferível a competição do que uma certa harmoniazinha...

Falsa...

Falsa. Porque faz parte de nós essa agressividade e essa energia, só que tem de ser bem canalizada.

Porque a grande viagem, a grande emoção não é partir para a guerra e andar a disputar assim... mas é a viagem no desconhecido, na agnosia e incognoscível fonte de todo o mistério. (risos)