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From: Pedro Fonseca [mailto:pf@pedro-fonseca.com]
Sent: Monday, July 07, 2003 12:17 AM
To: kung-fu-toa@yahoogroups.com
Subject: RE: [kung-fu-toa] A realidade !
Olá João, obrigado pelas tuas questões. A primeira questão que colocas, tanto quanto julgo saber, é uma das questões mais centrais que cientistas e filósofos têm debatido actualmente. É sem dúvida uma questão que vale a pena aprofundar mas seria irrealista pensar que podíamos chegar a uma conclusão sem de alguma forma cindirmos a realidade. Vou tentar explicar o que quero dizer com isto. Podemos dizer que há duas posições possíveis:
1. A ciência, entendida como ciência física, é completa (ou poderá vir a sê-lo se continuar a evoluir ao ritmo actual, digamos, daqui a mil milhões de anos).
2. A ciência, entendida como ciência física, é necessariamente incompleta porque existem outras realidades que uma abordagem exclusivamente física não pode analisar.
Quem defende a segunda perspectiva, tanto quanto sei, fá-lo porque, não obstante todos os avanços que uma ciência física futura possa ter, certos factos ficam por esclarecer. Por exemplo, uma ciência física mostra-nos aquilo que é eterno no mundo, aquilo que não muda. A partir daí (as leis físicas e os elementos primordiais energia, espaço-tempo) mostra-nos como o múltiplo aparece. E o múltiplo não é senão um arranjo particular do simples, do que é eterno. Ora este eterno é algo simples que se deixa explicar matemáticamente. Um cego poderia compreender as leis matemáticas que governam o comportamento dos electrões e protões (e de facto existm exemplos de físicos cegos). Mas um cego de nascença nunca poderá saber o que é o azul. Ele pode saber que o azul é uma onda electromagnética com certas propriedades, ou até o resultado da interacção entre essa onda e um certo sistema biológico. Pode ainda saber ao pormenor os detalhes de como essa interacção se dá, até ao mais ínfimo pormenor. Um cego de nascença pode fazer tudo isto, mas não pode saborear o azul, não pode sentir o azul.
É por isto que algumas pessoas dizem que uma ciência física, qualquer que seja o seu aperfeiçoamento futuro, será sempre incompleta. Ela não mostra nenhuma sensação. Penso que poderíamos alargar estes limites e dizer ainda (como o Camus) que ela não mostra nenhum sentido, não aponta nenhum objectivo, ou seja, não diz nada que diga respeito à existência entendida como existência mental ou espiritual, etc.
No entanto, isto é apenas um dos lados do dilema. É que aqueles que defendem o outro lado também têm razão. Supõe que postulamos uma outra substância para além da física, digamos, uma substância espiritual. Supõe ainda que faríamos uma ciência que se debruçasse sobre esta substância. Bem, ficaríamos com o mesmo problema: como diríamos a um cego de nascença o que é o azul, o que tem valor, etc? O que estes críticos apontam é que há coisas que a teoria não pode dar. Não se trata de um limite da ciência, não se trata de haver algo mais que o físico, mas simplesmente de haver coisas que exigem um contacto directo, uma experiència directa uma vivência.
Para perceber melhor isto temos de entender que a linguagem é um sistema simbólico. O que eu estou a dizer faz sentido para alguém que conheça bem os termos ciència, sensação, etc. Apesar de lidar com símbolos, o que me interessa é o que os símbolos significam, mas esse significado, essa referência, só se ganha se houver uma experiência concreta das coisas em primeiro lugar. Falar de amor a quem nunca amou é como falar do oceano a quem só viu um lavatório. Daí que a teoria, se pode reorganizar e articular melhor o conhecimento que já temos, é incapaz de nos dar um conhecimento radicalmente novo.
Ou seja, por outras palavras, a questão de saber se a ciência é ou não completa, acaba por ter duas respostas: talvez se venha a verificar que ela abarca todo o real no seu sistema de símbolos, no entanto, nunca será capaz, enquanto ciência, de proporcionar a ligação entre os símbolos e os seus referentes, porque não é capaz de proporcionar a tal «experiência directa».
No entanto, também isto é discutível. Por exemplo, sabe-se que a estimulação eléctrica de certas partes do cérebro evoca as sensações que estão associadas a essas partes do cérebro. E, por exemplo, sabe-se também que são os lóbulos pré-frontais que estão associados à experiência mística/religiosa. Portanto, é possível evocar uma experiència de Deus estimulando electricamente os lóbulos pré-frontais. Se isto for assim ao detalhe, isto é, se for possível evocar uma experiència minuciosa pela manipulação directa do cérebro, talvez uma ciéncia futura não transmita já os seus conhecimentos de maneira simbólica (o que exigiria uma experiência prévia dos referentes dos símbolos por parte do receptor), mas, ao invés disso, ela transmita os seus conhecimentos por manipulação directa do cérebro. Ou seja, não falando sobre a experiência, mas provocando a própria experiència. Diríamos então que uma tal ciència seria completa?
Bem diríamos certamente que seria mais completa, mas...
Não me alongo mais, desculpem se aborreço alguém com elucubrações sem sentido,
Um abraço,
To'a, p.
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-----Original Message-----
From: Pedro Fonseca [mailto:pf@pedro-fonseca.com]
Sent: Tuesday, July 08, 2003 4:08 PM
To: kung-fu-toa@yahoogroups.com
Subject: RE: [kung-fu-toa] A realidade !
Oi Marisa, nós aqui na lista há tempos
chegámos à conclusão que tudo é Kung Fu o que
inclui piadas, pensamentos, citações, saídas, golpes, etc. No
entanto não estou bem certo que o tudo inclua Karl
Popper!!! ;)
Em todo o caso a questão que colocas é
bastante pertinente e penso não chocar ninguém se falar um
pouco mais do que significa a palavra ciência. A ciência
(hoje) é o estudo do mundo, mas apenas de uma parte do mundo, o
mundo exterior, observável pelos sentidos, repetível, dissecável,
passível de ser posto num tubo de ensaio e esmiuçado e re-esmiuçado
até ao último pormenor.
Porque é que a ciência é assim? Porque não
há outra maneira melhor de conhecer o real. Ou haverá? Esta tem
sido uma das questões que separa místicos e cépticos (é claro
que há cientistas místicos e cépticos, tal como há
futebolistas místicos e cépticos). Os cépticos acham que tudo
o que ultrapasse o foro do conhecimento que pode ser testado
pelos sentidos é especulativo, ou seja crendice,
credulidade, uma aposta injustificada, que se faz para ganhar
segurança, ou amor, ou felicidade, mas quase por certo errada (visto
que o leque de possibilidades alternativas a uma dada fé é
potencialmente infinito). Os místicos afirmam que a observação
do real é incompleta e não explica sequer a própria experiência
interior que está na base de toda a ciência.
Afirmam, além do mais, que é possível contactar o real directamente.
E que esse contacto não só proporciona um conhecimento
(será este o termo certo) mais directo, como também mais infalível
e mais seguro.
Só um aparte para dizer que nas nossas
aulas endossamos este ponto de vista místico, quando se fala em
olhar o labirinto de cima, em ultrapassar os
dilemas, etc é precisamente dessa visão, desse contacto
directo com a realidade, dessa, em última análise, fusão ou
transcendência, que se fala.
Bem, agora é importante perceber que a ciência
é simbólica em dois sentidos, por um lado na *transmissão*
dos conhecimentos, isto é, a transmissão faz-se pela linguagem.
Isto não acontece necessariamente no conhecimento místico onde
a própria presença do mestre é transformadora,
independentemente de qualquer linguagem. Mas também ao nível da
*recolha* do próprio conhecimento. Isto é, enquanto o místico
medita e procura sentir a realidade no seu próprio
ser, o cientista experimenta, observa, repete a
observação, disseca, etc. Esta atitude de dissecação,
manipulação e reconstrução destina-se a quebrar a distância
que separa observador e objecto, mas é necessariamente
imperfeita porque *infere* as causas a partir dos efeitos.
Isto é, ela não observa directamente a força que faz a maçã
cair no chão, mas infere, a partir do facto de que todas as maçãs
caem no chão segundo um certo padrão, que existe uma certa força,
digamos a gravidade.
Portanto, existe um duplo simbolismo na
experiência. Ora essa distância entre observador e coisa
observada estabelece limites fundamentais e inultrapassáveis
naquilo que pudemos conhecer do mundo (e finalmente entramos em
Popper). Um desses limites é que, precisamente por não podermos
observar a força em acção, mas apenas a podermos inferir a
partir dos seus efeitos, nunca poderemos ter a certeza de que
estamos a observar a força correcta.
Suponhamos por exemplo que derivamos do
facto de que todos os objectos caem de uma certa maneira que
existe algo chamado a força da gravidade (isto é uma simplificação
grosseira mas pronto), ora nunca poderemos ter a certeza que essa
força da gravidade sempre foi assim (quando não estávamos a
observar), irá sempre ser assim, ou se ela é assim noutras
partes do universo (que ainda não observámos). Também não
sabemos se essa força, noutras circunstâncias poderia mudar.
Nem sequer sabemos se ela é uma força constante ou se pode
mudar arbitrariamente. Daí o famoso comentário de Hume de que não
sabemos se o sol irá nascer amanhã. Tudo o que sabemos é que
ele tem nascido.
Mas repara bem, tudo isto acontece porque não
há uma observação directa (das forças, tal como não há uma
observaçaõ física directa do outro, do que ele sente ou quer;
numa perspectiva física tudo isso é inferido a partir do
comportamento).
Ora eu estava a falar não apenas da ciência
presente (o que seria para mim algo chato) mas de qualquer ciência
futura. E coloquei uma hipótese: será que a ciência pode
deixar de ser simbólica? Será que ela pode *transmitir* o
conhecimento directamente (por exemplo pela manipulação directa
do cérebro) e será que isso faria dela uma ciência completa?
Aquilo que dizes é realmente muito pertinente, pois mesmo que
uma ciência conseguisse transmitir os seus conhecimentos de
forma directa, nem por isso poderíamos pensar que o seu
conhecimento da realidade seria mais directo, seguro ou
abrangente.
Portanto, agora em vez de colocar uma questão
coloco duas: e se uma ciência futura (digamos daqui a mil milhões
de anos) conseguir um contacto directo com o mundo (o que implica
a observação directa das forças e não apenas dos seus efeitos)
e se conseguir transmitir os seus conhecimentos de forma não
simbólica? Será essa ciência completa? O que é que acham?
Um abraço e espero não estar a chatear
ninguém,
To'a, Pedro.
PS Caro Yves, o amarelo, tal como o
castanho, enquanto cor sentida não tem qualquer
correlação física com uma frequência ou conjunto de frequências
electromagnéticas. Como eu disse num mail anterior, aquilo que
é transmitido pelo nervo óptico através da retina não tem uma
correlação simples nem directa com as frequências que nos
rodeiam (se quiseres vê o trabalho que fiz há algum tempo sobre
o modo como a retina interpreta e processa os sinais luminosos e
que mando em anexo). Mas *mesmo que houvesse essa relação*
(como existe, por exemplo, no caso da audição), ela seria
contingente: segundo aquilo que sabemos actualmente sobre o cérebro
um cérebro num tanque ligado a um simulador (tipo
Matrix) poderia sentir exactamente os mesmos sons e
cores mesmo que não houvesse qualquer oscilação em todo o
universo. Um abraço, p.
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From: Pedro Fonseca [mailto:pf@pedro-fonseca.com]
Sent: Tuesday, July 08, 2003 4:32 PM
To: kung-fu-toa@yahoogroups.com
Subject: RE: [kung-fu-toa] A realidade !
Oi Guilherme, só agora li o teu mail, se
tivesse lido antes teria corrigido algo que mandei no meu último
mail. Em vez de dizer que havia cépticos e místicos e pôr o
To'a a endossar os místicos, teria dito que há aqueles que
negam e os que aceitam. Os que negam, são os que, estando do
lado da ciência ou do espirito (a teologia), negam a utilidade
ou interesse do outro lado. Os que aceitam são os que utilizam o
que de bom as duas áreas têm para oferecer e as interligam numa
síntese criativa (provavelmente sempre incompleta). Só para
finalizar, acho que seria importante também distinguir um
terceiro grupo: o dos que afirmam que é o que não é (ou que não
sabem que é) - que é outra forma de não aceitar, só que em
vez de ser pela negação é pela afirmação.
No fundo uma vivência plena passa muito
pela aceitação, aceitação do interior (que leva à acção) e
aceitação do exterior (que leva à compreensão). O yin e o
yang na medida certa.
To'a, p.
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From: Pedro Fonseca [mailto:pf@pedro-fonseca.com]
Sent: Wednesday, July 09, 2003 2:49 PM
To: kung-fu-toa@yahoogroups.com
Subject: RE: [kung-fu-toa] A realidade !
Just to wrap up...
Oi pessoal, deixei a resposta a meio e agora
vou só finalizar... (isto é um bocado especulação a mais,
fiquei um indeciso se havia de mandar para o grupo, mas eu
precisava de escrever, e é sempre mais fácil escrever quando
pensamos que teremos pelo menos 1 leitor, obrigado :) :)
Só uma pequena observação prévia em relação
ao que o Carlos escreveu: medir é comparar, a ciência
utiliza a medição precisamente porque tenta observar a relação
entre objectos, deduzindo daí padrões, leis, causas. Mais do
que a observação directa do objecto, é a relação entre
objectos o tema da ciência.
Portanto, retomando o fio à meada, a minha
pergunta era se uma ciência futura poderia chegar aos objectos
eles mesmos, visualizar directamente as causas, e não apenas
estabelecer leis e criar hipóteses a partir de derivações de
comportamentos. Uma tal ciência seria muito diferente da
habitual. Ora nesta conversa também temos questionado a relação
entre ciência e misticismo e o papel que a religião
(no sentido em que o Guilherme usou o termo: como re-ligar) pode
ter ao conciliar essa dupla. Por causa disso penso
que seria inadequado chamar a esse conhecimento futuro ciência
e vou-lhe dar um outro nome qualquer, digamos rmc (religião/misticismo/ciência).
O aspecto mais importante da rmc é que
seria capaz de observar as coisas tal como são, uma observação
directa. Mas como se consegue chegar a essa observação directa?
Será o resultado de melhores teorias ou instrumentos de observação?
A resposta terá de ser não, pelo menos segundo a concepção
actual de teoria e de observação. Note-se
que qualquer observação, neste sentido, implica sempre uma
distinção entre sujeito e objecto: tu e ele, eu e tu, eu e o
mundo, etc. E aquilo que se pretende na observação
directa é algo distinto, uma espécie de fusão
em que eu e o objecto somos afinal um só.
Mas não será isso impossível, ou pelo menos tão afastado da
nossa experiência que somos incapazes de o caracterizar?
Bem, penso que não. A experiência mais
directa que podemos ter de algo sem mediações é de nós mesmos
(da nossa vontade), mas também da própria experiência.
Qualquer que seja a relação entre a nossa sensação de vermelho
e qualquer estrutura física a própria sensação,
quando é sentida, aparece sem mediação. Para o sujeito ela é
directa, imediata, indubitável.
No Kung Fu aprendemos a sentir o
outro. Numa luta aprendemos a ver quais são os pontos mais frágeis,
os mais fortes, o que ele está a pensar fazer, etc. Certas
pessoas contam que são capazes de sentir outras à distância,
ou com um mero olhar. Uma espécie de telepatia. Quem já sentiu
isso certamente caracteriza essa experiência como tão directa
como a própria experiência do vermelho, ou qualquer outra
experiência interior. O mesmo acontece em relação à vontade,
ao impulso e ao desejo. Trata-se de uma experiência
directa.
Essa experiência directa é
algo que se pode pôr em palavras, mas, tal como um cego de
nascença não pode compreender o que é sentir o vermelho, também
alguém que ainda não a tenha tido não poderá compreender o
que significa. Serão os pressentimentos, o olhar para aquela
fotografia que há tempos a Luíza mandou para a lista e sentir
o que há a fazer. Para quem faz massagem, acupuntura ou outros
tratamentos é essa união com o paciente que tão
importante é no processo de cura. Trata-se não de observar
de fora mas de observar de dentro. E para isso
é preciso viver, não saber, não conhecer, mas viver o outro.
Há quem conte que é possível sentir
assim o universo, viajar para lá do visível e sentir as
correntes que se aproximam. Portanto, de certa forma, e a
acreditar (ou a experimentar) esta forma de sentir, já atingimos
parte do rmc. Nomeadamente, alguns de nós já o atingiram
parcialmente em relação a certas categorias de objectos,
nomeadamente pessoas, plantas, terrenos (o Feng Shui), épocas,
etc. (Isto quando conciliam o aspecto espiritual com
o aspecto físico do conhecimento.) Mas isto ainda não
é o rmc de que falo, pois hoje em dia, há ainda uma divisão
entre este conhecimento intuitivo, extra-sensorial, e a imagem
que a ciência nos dá do mundo.
Por um lado conseguimos antecipar,
compreender, agir melhor quando nos sintonizamos com esse tipo de
percepção directa, mas por outro a ciência é
capaz de nos dar um conhecimento quase ilimitado, em precisão e
alcance, sobre o mundo. O futuro, o atingir o rmc, é desenvolver
e combinar os dois. É compreender, cada vez de forma mais fina
e subtil, como a razão interior, o impulso interior, o que nos
faz mover, se encontra em todo o lado, e se expressa de uma
maneira precisa, segundo uma certa linguagem. Uma espécie de
tradução exterior de um estado de espírito
interior.
Eu pessoalmente acredito que essa é a
viagem do Ser, uma viagem que cada um de nós concretiza à sua
própria escala e que os seres do nosso planeta, por exemplo,
também têm concretizado como um todo, passo a passo (em direcção
ao conhecimento (exterior) e amor (interior). Também acredito
que em muitos, em biliões, de outros planetas, se desenrola o
mesmo processo, do universo tomando consciência dele mesmo, nos
seus aspectos exteriores (de comunicação) e interiores (de
unidade). Acredito que o finalizar desse processo é o puro êxtase
do Encontro.
Afinal também tenho um Fé...
pelo menos a certas horas do dia ;-)
To'a, p.