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Trabalhos de Licenciatura.
São maus, têm erros óbvios, frases mal construídas, falta-lhes a bibliografia (quando é que um trabalho meu tem bibliografia??), e, sobretudo, apresentam normalmente teses invulgares (isto é maaaau) e quase sempre críticas do autor em análise e cuja defesa nem sempre é fácil. Mas cá estão eles, são os meus trabalhos da FLUL! (Alguns, não todos, porque houve uns que perdi - ai estes computadores!!! - outros que só faziam sentido no enquadramento daquela cadeira.) Enfim... Está na altura de ser Saudosista!! ;)
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Lista de Trabalhos
- A Dedução Transcendental das Categorias Puras do Entendimento 1992 - um dos dois meus 'grandes' trabalhos no primeiro ano da Faculdade. Chato, detalhado, mas despretensioso e mostra uma grande vontade de perceber as coisas. O problema de que Kant parte é simples: podemos compreender aquilo que vemos e estabelecer relações de causa-efeito que funcionem, mas não consequimos compreender o que 'está por trás delas'. Isto é o que lhes dá origem. Este problema não é novo e Hume, a partir dele, formulou a ideia de que não podemos saber, por exemplo, se o Sol se erguerá amanhã, pois ainda não o observámos, e nada nos garante que o futuro seja como o passado (justamente porque não percebemos o que é que faz que as coisas sejam como são). Kant não gostou da resposta de Hume e quis construir uma justificação para a ciência, algo que pusdesse explicar porque é que a ciência funciona, e que nos fizesse acreditar que vai funcionar, que, é possível de facto saber que o sol vai nascer amanhã com algum grau de certeza. Vai daí formulou uma hipótese: que a nossa experiência das coisas dependiam de estruturas transcendentais (que não podiam mudar e) que davam à experiência a sua regularidade habitual. O meu trabalho é sobre uma pequena parte dessa estrutura transcendental, mais especificamente, é sobre a dedução de parte dessa estrutura. Enfim, só mesmo para viciados (hoje já não escolheria esse tema, escolheria algo mais do tipo: 'e se a hipótese de Kant é só uma hipótese, como é que eu *sei* que o sol vai nascer amanhã'. Mas pronto o trabalho está feito, passei à cadeira e não se fala mais nisso!)
- Física Quântica 1992 - O meu segundo 'grande' trabalho do primeiro ano de Faculdade. Desta vez sobre a Física Quântica. Deu-me *montes* de trabalho, e está, do ponto de vista filosófico, uma porcaria. No entanto é bastante preciso no que toca a datas e ao desenvolvimento, do ponto de vista histórico, da teoria. Mais tarde fiz um grande desenvolvimento deste trabalho (mais umas vinte páginas, diagramas e desta vez a parte filosófica estava melhorzinha, mas perdi a coisa!! Incrível o que estes computadores têm a lata de fazer à gente. E tudo porque quis instalar um CD-Rom numa placa que não suportava LBA e depois... ai, ai...). O grande problema deste trabalho, como já disse, é que não foca muito a parte filosófica. Basicamente, o problema da Física Quântica é que, se as suas teorias permitem fazer previsões muito boas sobre observações (respeitando a natureza estatística da previsão), ela não nos consegue dar uma imagem do que está a acontecer antes (ou depois) da observação se dar. Na verdade, segundo uma leitura mais literal, parece que se estão a desenvolver realidades alternativas mas mutuamente incompatíveis (tipo está um electrão dentro desta metade da caixa *e* *este mesmo* electrão está na outra metade da caixa) realidades essas que parecem suficientemente reais para interferirem entre si enquanto não há uma observação, mas que desaparecem todas, à excepção de uma, quando é feita uma observação (daí nunca se observarem coisas 'impossíveis'). Parece estranho não é? Pois, muita gente acha o mesmo e até agora ainda não se chegou a um acordo sobre como resolver o problema, ou até se deve ser um problema que os físicos se devam colocar. Enfim...
- Popper 1994 - O ano de 92-93 foi no mínimo bizarro. Apaixonei-me por Platão e a cultura grega, mas, depois de um ano aturado em estudos acabei por fazer um dos piores trabalhos de sempre. Enfim... o perfeccionismo mata. Pelo menos no meu caso. Em 1993-4 dediquei-me sobretudo ao estudo de Popper e Kuhn. Este é o meu primeiro trabalho sobre Popper. Curiosamente, sendo Popper um autor recente (séc. XX) o seu estudo não tem grande interesse para a comunidade filosófica actual. No entanto, e isto é apenas a minha opinião, penso que muitos dos problemas (sobretudo no que toca ao problema da referência) poderiam ser clarificados com uma abordagem que tivesse em linha de conta os insights popperianos. Mas pronto, nada disto tem a ver com este trabalho que apenas balbucia umas coisas acerca de Popper.
- Kuhn 1994 - E aqui está, um trabalho sobre Kuhn, que acho que é provavelmente um dos escritores mais citados e menos compreendidos que conheço. Kuhn acentuou o papel dogmático que os investigadores científicos desempenhavam face às teorias que propunham (ou defendiam). Esta tese não só estava em claro contraste com a de Popper (que acentuava o papel da crítica na construção da ciência) no que toca à descrição do que os investigadores na verdade fazem, mas também em relação à própria 'deontologia' científica, isto é, Kuhn não só tentou mostrar que os cientistas, do passado e do presente, são dogmáticos (acérrimos defensores) em relação às suas próprias teorias, como tentou mostrar que essa casmurrice era útil (talvez mesmo essencial) para o progresso da ciência. Infelizmente, utilizou certas palavras, como 'incomensurabilidade' e teceu certas considerações sobre o relativismo das observações empíricas que levarão muitos a apelidá-lo de relativista, construtivista e não-sei-que-ista, tudo no pior sentido da palavra que puderem imaginar (isto é, assumindo uma posição que, tal como é descrita pelos seus opositores, é tão absurda, que não podemos deixar de ficar chocados com o facto de alguém lhe pagar o ordenado e de haver uma editora que publica os seus livros!!) Enfim... Eu acho o Kuhn fixe, mas um bocado trivial. O grande problema a que ele, como Popper (e Kant), se dedicou, permanece irresolvido: 'como é o progresso da ciência possível?'
- Popper 2 1994 - Um trabalho mais maduro sobre Popper, na mesma linha das reflexões anteriores.
- Inteligência Artificial 1994 - Bolas, este é que me deu mesmo montes de trabalho! Mas não está nada bom, para já nem tive tempo de o escrever até ao fim (isto de trabalhar sempre em cima dos deadlines!!) e depois o campo é vastíssimo. Mas deu para ter positiva (também num curso de filosofia não se exige muito do ponto de vista computacional). Eu não me metia nesta leitura, se fosse a vocês, estão avisados!! (Note-se que é uma perspectiva técnica da IA, o que é que se consegue fazer no campo da compreensão da linguagem natural e coisas assim, não é sobre os problemas filosóficos que a IA coloca. Para isso vejam o trabalho de baixo.)
- Searle 1998 - E pronto, eis um trabalho que me deu mesmo muito gozo fazer. É sobre os problemas filosóficos da IA, na perspectiva de Searle, que é um tipo um bocado radical nos nossos dias. Quer dizer, na época em que quase todos os filósofos aderem ou aderiam ao funcionalismo (os tipos que lhe pagavam o ordenado ou pelo menos que liam os livros dele) e vai ele e diz que é tudo uma cambada de malucos. Fica chocado por se defenderem teses 'obviamente' erradas e por ninguém falar contra isso. Este é o tema central de um dos seus livros «A Redescoberta da Mente». Enfim, é mesmo chocante para quem tenha sido criado dentro dos paradigmas da filosofia da mente actuais e esteja 'virgem' em relação a este tipo de ataques. Isto tudo era novidade para mim na altura em que escrevi o trabalho. Limitei-me a estudar o exemplo da Caixa Chinesa e pronto!
- Goodman 1995 - Os analíticos qua (qua, qua?!?) analíticos não se interessam por coisas como: 'o fim do tempo, a entrada numa outra dimensão, é o que a visão paradisíaca deste quadro nos proporciona'. O objectivo é encontrar uma linguagem objectiva, precisa, no ideal, que fosse empiricamente verificável. Ora tudo isto é um pouco difícil de atingir face à arte, onde nos encontramos sobretudo no plano dos gostos, das emoções, do puramente subjectivo. Mas pronto, Goodman (que é um analítico) tentou encontrar uma definição da obra de arte com base na polissemia e densidade do símbolo. Ou seja se o símbolo § só significa parágrafo, não pode ser considerado como uma obra de arte, mas, no caso de ser entendido como cavalo marinho e/ou liberdade e/ou amor e/ou companhia, etc, e, se além disso, estivesse associado a outros símbolos e com eles fizesse essa tal linguagem polissémica complexa, então poderia ser considerado uma obra de arte. Enfim, pelo menos é o que me lembro ao fim de ?? anos. (Leiam o meu trabalho que lá deve estar explicado. O quê?!? Não pensaram seriamente que eu me ia dar ao trabalho de ler novamente as coisas parvas que escrevi há anos e anos atrás?!! Não! Isto é um mero exercício Saudosista!! E os saudosistas só olham para aquilo que querem ver. 'Como era belo!' E não: 'como foi.') Pronto, resumindo e concluindo, eu basicamente discordo do Goodman porque penso que o que identifica um objecto como sendo uma obra de arte envolve algo como a 'beleza' que não é definível (pelo menos para mim) em termos de densidade de significados.
- Aristóteles 1998 - Tive verdadeiros infernos no primeiro ano a *tentar* ler Aristóteles. Era impossível e não me estou a referir ao texto grego, não importa a língua, sempre achei aquilo uma seca, e, bastavam dois ou três parágrafos para me pôr a dormir, a levitar, ou a pensar noutra coisa qualquer. Enfim, era um óptimo analgésico, mas pouco mais do que isso. Mais tarde (cinco anos depois!) percebi que o mal estava em ler apenas a epistemologia de Aristóteles (que continua a ser hoje para mim sonorífera), a Política (e também a Ética) deixam-se ler por puro prazer, num êxtase arrebatado e contínuas de novas experiências. Acho sinceramente que toda a gente deveria ler A Política de Aristóteles. Ajuda-nos imenso a perceber o nosso dia-a-dia e dá imenso prazer!! (Na verdade acho que vou deixar isto e pôr-me a ler agora... Ah!! Afinal não, isto também é giro!!) Este trabalho não exprime (pelo que me lembro) esse prazer, mas coloquei-o aqui porque me faz lembrar esses momentos, dessas leituras.
- Freud 1998 - Este trabalho teve a minha pior avaliação de sempre (mas não a pior nota) e percebe-se porquê. Eu começo o trabalho a dizer que não é preciso criticar Freud, porque as suas teorias são evidentemente falsas a qualquer pessoa que tenha o mínimo de bom senso. O que é interessante é perceber como é que a teoria de Freud (da mesma maneira que a astrologia, a quiromancia e outras que tais) conseguiram a fama e a autoridade que têm ainda hoje. É claro, isto nunca se poderia aguentar e tive alguma sorte por me ter safado. Apesar disso é um dos trabalhos que me deu mais prazer fazer, e é certamente um em que acredito totalmente. Eu penso mesmo que as teses de Freud não valem um caracol. Este trabalho custou-me mesmo muitas, muitas, muitas horas de leitura, escrita e sistematização. Mas quase todas elas foram de intenso prazer (não é giro como tudo parece tão bom no passado - lembram-se das aventuras dos Cinco (do Enid Blighton), aquilo que eles achavam mais aterrorizador era o que recordavam com mais prazer... mas aqui não é o caso, as noites em branco a fazer trabalho são coisas que não recordo com prazer, a leitura do livro de Webster, ai, ai... lá estou eu com ganas de retomar este livro outra vez!).
- Foucault 1998 - Este foi um dos meus últimos trabalhos. Não recordo a sua execução com muito prazer, porque fui obrigado a não estar com o meu avô (que tinha vindo do Brasil e que entretanto faleceu) só para o fazer. Além disso a compreensão e sistematização do texto de Foucault revelou-se dantesca. Mas ao fim de algumas semanas lá consegui entrar na linha de pensamento e orgulho-me do trabalho que fiz. Acho que está fixe. Na oral percebi que os dois volumes seguintes da História da Sexualidade desenvolviam uma nova noção de poder como algo não inteiramente negativo. Mas, apesar do meu trabalho não abordar essas vertentes (restringe-se ao primeiro tomo da obra), penso que, no geral, capta relativamente bem o pensamento de Foucault nesta obra. E pronto, é a lista da FLUL.