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Pudera ser como tu ó minha filha descampeçada. E eu seria então praticamente feliz!! Sim, porque a felicidade não se conquista... Ganha-se! E eu mereço tentar ganhá-la e, com ela, a felicidade; porque almejo, porra!
E, se não fosse isso, não sei o que seria de mim; sempre aqui, estendido nesta poltrona, por entre estas quatro paredes, esperando que sejam horas de almoçar. Outras vezes, mais à tarde, esperando então que sejam horas de jantar. Enfim uma vida em que a minha única companhia é um porco, já assado e coberto de manteiga. O horror!
É nessas horas (quando como o porco) que penso e sinto o que digo, mesmo que o não diga, mesmo que o não sinta, mesmo que não pense. Pense, mas pense bem! O que é a vida afinal senão um conjunto de seres pensantes. "Penso, logo existo!!!" Não era esta a frase de um pensador famoso? Não seria esta uma das mais admiráveis, senão até crípticas, afirmações do seu pensamento? Pensando, pensando, pensando, chegamos ao seguinte pensamento: Embora tudo o que pense existe isso não quer dizer que pense tudo o que existe ou, sequer, que pensa tudo aquilo que, julgando pensar, não pensa. Penso que este pensamento, ou melhor, este pensar tem muito que se lhe diga. E se o meu porco estivesse vivo tentaria que ele pensasse também; dentro das suas limitadas capacidades, é claro.
Alguns pensam que os animais não pensam. Que não pensam!! Mas pensem num galo, pensem numa vaca, pensem num crocodilo. Pergunto: Mas será justo para com estes animais pensar que não pensam? É evidente que não!
É por isso que eu não gosto de estar sozinho! Aborreço-me tal como uma vaca ou um javali gordo. Sou, afinal, um dos poucos seres (já viram que 'seres' também se pode escrever 'seres'...?(ao contrário))inteligentes deste mundo. Poderia ser grande se não fossem aqueles contratempos (mas não vou agora falar disso). E afinal aqui estou retido a comprazer-me com os restos-mortais de um bicho que, se fosse vivo, até podia ser meu amigo. Ah!, querido porco, que bem que me sabes!
Mas, fugiu-me o pensamento... Há já três anos que me concentro neste problema: podemos pensar que os átomos, por alguma propriedade desconhecida retêm uma espécie de memória daquilo que já passaram, uma espécie de alma. Nesse caso, pensem bem. Nascemos do ventre da nossa mãe, alimentados directamente do sangue que passa através da placenta para o nosso corpo. Mas, de onde vem o sangue da placenta? Do coração que o bombeia e das veias que o transportam, da carne que o recusou. Mas, temporalmente, provém da carne de outros bichos, da água de muitas fontes e de legumes e outros. A nossa carne é uma transformação dessa matéria. Que é, por sua vez, resultado de transformações anteriores. Quando morrermos a nossa pele e ossos servirão de comida às lagartas, às árvores, aos ratos, aos cães, etc. Ora, faz ou não sentido, quando descrevemos um átomo, referir a sua proveniência? Isso é uma propriedade, uma característica do átomo? É evidente que sim. Pois, mesmo que um dia alguém prove que não se pode, a partir das características do átomo num determinado momento, descrever a sua história passada (ou a história dos seus componentes), isso não nega que tenha uma história, que lhe pertence, que é uma propriedade sua. Ora, visto que o átomo tem esta propriedade nada indica que ela não se possa manifestar sub-repticiamente, ou até, quem sabe, subliminarmente. Parece-vos isto impossível?
A mim não, já nada me parece impossível. Mas, mesmo pensando que são tudo disparates não podemos ignorar a proveniência da nossa matéria. Se guardamos connosco a memória da nossa despensa é discutível, mas que somos feitos dos cadáveres, da água e dos fetos vegetais de que nos alimentamos, isso, é indiscutível.
Que achemos isso uma porcaria é o primeiro e talvez incontornável passo para nos distanciarmos da ideia da morte. (Ideia que é apenas desagradável mas que não impossibilita por si uma civilização próspera.) E então admiramo-nos: Como é possível que um tal monte de entulho e excrementos dê origem à mais magnifica e cristalina realização do universo: a consciência? E ficamos aparvalhados. É o mistério, é o mistério. E, no dia seguinte vendem-se jornais falando do mistério da vida, tomando-o como coisa certa e segura, inultrapassável, inolvidável.
Pois eu afirmo que não. Estou aqui, como o meu porco, e a vida é cinzenta. Não é vermelha. Olhar a carne de frente não leva a que se veja só a carne, a que a luz se desvie para o vermelho e os impulsos se agarrem ao sado-masoquismo. Tal como olhar para a luz divina não implica que se viva uma vida marcada pela paz e pureza. Há padres tiranos e perversos e há playboys de coração fraterno. Não é o sangue vermelho e espesso que nos rouba a vida, é a obsessão e ausência de alternativas.
Ah! Tocam à campainha, deixa ver quem é :) :) :)
Era só o carteiro $ $ $ Bem, e o porco já se acabou é melhor voltar para dentro, para o quarto, agora que já tenho o meu amigo dentro de mim...