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SOS



O seu corpo movia-se como ondas de mar. E eu, o que era? Areia de mar, sol abrasador, espuma que se espraia nas encostas escavadas das ondas sem carne?

Entre tu e eu, já não há mais nada. Tudo desapareceu das nossas fronteiras. As vontades já não se chocam, trabalham em uníssono, nas terras alheias. Os olhares já se fecharam, assim como todo o corpo, a tudo o que não fosse o outro.

Eu e tu, desta vez pelo sexo, da próxima, quem sabe?, unidos pela respiração ofegante, pelos olhares, gestos e vontades sincronizadas.

Emprestas-me o teu corpo, e já não é o teu corpo, é o prolongamento das minhas mãos. Tu não desapareces, muito pelo contrário, transformas-te, nas minhas mãos, num bálsamo maravilhoso que espalho pelo meu corpo. Espalho a tua boca pelo meu sexo, abro os teus lábios que me percorrem, abro-te as pernas que se abrem para mim. No teu olhar vejo a minha figura. Onde estás? Onde estás?

Estás aqui, comigo, leite nas minhas mãos, derretida sobre um olhar, mas sempre tu. Sempre tu. Com todas as tuas ideias, todas os desejos e todas as vontades, a fervilhar, a sonhar, a amar, a voar, a cantar, a navegar.

Navego no teu corpo e tu navegas nos meus sonhos. Voas neste mundo que fiz só para ti. Em que és escrava e raínha, puta, prostituta, sem medo, aberta à vida, amante, apaixonada, roubada por um desejo, um desejo de morrer e viver em mim essa morte que a paixão torna tão doce.


Agora, agora, agora... Agora que morreste, entre os meus braços, por entre esses lamúrios que falam de uma vida que se queimou, de um espírito incendiado de prazer; agora que descansas entre os meus braços, espalhados pelos teus, encantados em suor, agora que sentiste o céu e a terra enquanto eu dizia quanto te amava, agora que sentiste os meus beijos no momento máximo do prazer, agora que me ouviste dizer: 'és minha?' e te ouviste dizer 'sou tua...', agora que o teu coração descansa junto ao meu, agora que os lençois, alagados em suor, recebem o fruto do teu prazer, agora que os olhos se fecham lentamente para a paz, agora que todo o corpo descansa, agora que finalmente te sentes capaz de decansar, agora... agora que te entregas totalmente, agora, eu sei, ..., és realmente minha: os dois amantes, presos à cama, presos ao quarto, libertos voando numa sede imensa de amar.


Agora que tudo acabou, levantas-te, vais à casa de banho, já sei que logo vais querer mais, mas agora, só a sede de infinito... só essa saudade de um tempo sem tempo te invade. E procuras isso, nas cores da casa de banho, na frieza do quarto, nos azulejos que suportam os pés, na banheira fria e no espelho só de nódoas. Acordas, outra e outra vez para este mundo, que te dá a carne. E pensas novamente no teu corpo, e no meu.

Somos dois corpos, que andamos à deriva, à procura do amor. ... Só, sós, À procura do Amor...