O Sonho

És os meus olhos

Queridos a branca flor

Desejo-os
Como o barro
Como a cisterna
E a flor

Que fazem a minha vida
De alegrias mil.

Deitas-te no meu colo
E eu digo-te: faz o que quiseres.

Do teu cabelo desprende-se o cheiro a mirra e incenso
E dos teus abraços nasce continuamente
O amor florido
De todas as águas, de todos os bosques,
Que nasceram para me abraçar...

Digo-te: faz o que quiseres.
És criança, és papoila,
Nos meus braços

Fazes risos e raízes no meu corpo,
Espalhas-te pelo meu abdómen
Como um néctar silencioso
E sorris
À espera de novos milagres.

Da tua cabeça pendem desejos
E eu digo-te: faz o quiseres

Como uma nuvem, como um girassol
Rebolas-te pela neve do meu corpo.

Perguntas-me se me podes desapertar
Se podes ir até ao fundo de mim...

Digo-te que 'estás à vontade'
Que ele não morde...

Rebolas e brincas como uma criança
Desprovida de um velho brinquedo
Fascinada com uma nova invenção

Procuras-me entre os lençóis
A tua cabeça repousa na minha
Encostada ao prazer que dela emana
A pele em flor erguida.

Beijas-me a pele,
Beijas-me o centro
Do Corpo, do prazer.

Beijas-me e sorves o meu sabor
O meu cheiro
Como um brinquedo
Perdido na natureza.

Os teus cabelos
Soltos ao luar
Soltos ao Sol
Soltos à chuva
Sem vergonha
Iniciam novas explorações.

E vês toda a beleza,
Vês toda a paixão
E digo-te:
Olha-me
Vê os meus olhos
Imersos nesta pele
Que se erguem para ti e te querem amar.

Visto-me.
Voltamos à viagem
Erguidos neste mundo
Agora já mais juntos
Pelas brincadeiras de crianças
Que nos permitimos.

Fazes-me a vistoria à pele,
De vez em quando,
E pedes-me para brincar,
De vez em quando.

E eu deixo-te
Como se fosse meu o meu corpo
E tu desse só para ti
Para fazeres dele o teu campo de batalha
O teu jogo de descobertas
O teu confronto com as presenças.
Que, como aparições,
Se erguem, para os teus olhos as verem,
Para os teus braços as abraçarem
E tu poderes dizer: sou eu! Sou eu!

E rires e brincares na madrugada e no sol poente...

Estou aqui
Só para ti,
Junto contigo
Nas brincadeiras
E nas diversões
Nos risos e nas derrotas
De brincadeiras de brincar
De lutas de papel
De esgrimas de olhos pedrados
Pedrados nesse olhar para lá do mundo
Para lá do tempo.

Para lá do tempo,
Vê como te ouço,
Como te venero
Como te amo...
Ternamente...
Como te quero...

Infinita ternura...
Infinito amor....
Dois - Um
Dois - Um




E nesses jogos
De amantes
Como se fôssemos amantes
Desprendem-se carnes róseas
Eternos amores
Perdidos dos corpos
Ao alcance dos olhares

E os pulsos que não se prendem
Que não se vêem
As mãos que não se tocam
Nesse além onde te conheço.

Deixa-me abraçar-te neste mundo demasiado amplo,

Deixa-me segurar a tua mão e levar-te para onde o amor nos protege

Como um anjo

Nesta abominável ignomínia
De que queremos escapar

Vem comigo,
Voaremos para lá do Sol
Voaremos onde as asas não podem chegar
Onde o vento não pode alcançar

Voaremos para lá das palavras e dos sons
E quando voltarmos, tudo será diferente

Tudo será diferente.

Teremos a voz timbrada pelo canto das musas
E na nossa pele virá o cheiro do Paraíso
E nas nossas mãos cantará o Sol
E em ti, e por ti viverei
Todos os meus dias
E para ti te darei
Todas as minhas noites
Passadas para lá do tempo.

E como dois, um,
Viveremos o que nos restar viver
E amaremos o que nos deixarem amar.

Mas eu,
Nessa saudade que o tempo não deixa esquecer
Erguer-me-ei, no fim, para te ir buscar
E com beijos de ternura
Lânguidos de amor
Molhados de vida,
Erguer-te-ei da Morte,
E com meus braços erguerei os teus...
E todo o teu corpo irei erguer com meu amor,
Desde os pés às coxas, aos braços, à face...
E toda tu, pura, virgem, intocada pela violência,

Serás outra vez menina e Criança,
Resplandecente de paz e amor
De verdade e liberdade
E em mim e por mim
Alcançarás a Vida
Com a qual farás o que quiseres...

Teu,
E.t.
Pedro.