Preso

É triste esta saudade
Que me corrói o peito,
Esta Saudade pela mocidade,
Por esse vento, por esse Sol, de uma vida maior.

Este lamento que em minha alma descansa
Não se funde, não se perde, não se cansa,
Vive, na alma onde o pensamento dança,
E redança, rodopio que não se vê.

Atolado, amordaçado, arredado,
da vida. Incapaz de Ser,
de sair da concha
e pelos olhos,
rasgados de luz e cor,
Abrir ao mundo novas perspectivas
de Sémen misturado com licor.

Bate, bate, no vidro frio da Realidade,
Realidade das mil cores,
Fugaz, indizível, inexplicável,
Inultrapassável.

Bate, bate, sonho meu,
Nunca alcançarás,
Nunca beberás,
Esse licor, que nos retira da humanidade
E nos transfigura em Deuses.
Dizendo-nos, Oh, Senhor...
Quem somos e o que fazemos,
Porque lutamos e porque morremos.

Dirijo-me para o nada,
Sinto já a morte na nudez da pele
E o solo a tocar-me os olhos.

A invadir-me a carne. Profundamente,
Incontornavelmente.

Leva-me Terra de onde nasci!,
De onde nunca devia ter saído...
Anseio pela morte.
Pelo fim das alegrias e das tristezas
Dos problemas e das soluções.

O Amor e o Ódio enojam-me...
Só o Nada me seduz,
– Nunca ter sido –
O meu ideal.

(corre-me o sangue pelos cabelos
a terra invade-me, por aí...
antecipo já o sabor da morte.
Os meus lábios já não pensam,
Sentem... O sangue a esvair-se...
E tudo se desvanece à minha volta
Para o nada - o Tempo desaparece -
A Memória nunca existiu.
Nunca Nada Existiu! Nunca Nada Existiu!)

Memória Ausente...
De um passado inexistente,
E de um Futuro que nunca virá.
Não nos resta nem o presente
Para contemplar a nossa sorte.

Só o mar da Eternidade,
Que precede o nascimento
E sucede aos sonhos quentes
Dos nossos dias de Verão.

PF 97.12.08